Fendas no Véu
Por um Escriba Psíquico
Publicada na Revista Azoth, Outubro 1918, Volume V, número IV

Desde que Mark Twain deixou este mundo e partiu para a terra dos espíritos, ele teria feito várias tentativas de provar que ainda vive e que é capaz de se comunicar com aqueles que permanecem na Terra. Diversas mensagens, supostamente recebidas dele, foram apresentadas ao público por médiuns respeitados; e algumas delas carregam, de fato, traços muito próximos do célebre escritor que um dia divertiu o público leitor.
Sempre dotado de uma vivacidade espirituosa, e habituado a transmitir sabedoria envolta em humor, Mark Twain parece ter levado consigo essa mesma maneira de ser para além deste mundo. As mensagens atribuídas a ele são cheias de graça e de uma filosofia peculiar. Sua capacidade de trabalho, além disso, parece não ter diminuído: dois livros, recebidos por meio de um tabuleiro Ouija, já foram publicados por uma médium empreendedora que conseguiu estabelecer contato próximo com ele e registrar suas declarações brilhantes.
Como resultado de uma experiência psíquica recente, pude acrescentar mais uma mensagem de Mark Twain àquelas que já vieram a público. O meio pelo qual obtive essa comunicação foi semelhante ao empregado por outros médiuns: havia um fio condutor para o assunto, e um elo com o plano espiritual pareceu formar-se em resposta ao meu desejo de informação.
Eu vinha lendo o novo livro do Dr. Hyslop, Contact With the Other World, no qual o autor dedica grande espaço às mensagens de Mark Twain recebidas por médiuns, além de manifestar firme crença na autenticidade de Jap Herron, uma das obras póstumas que se diz terem sido ditadas por Mark Twain.
Depois de ler a obra do Dr. Hyslop, senti um forte desejo de entrar em comunicação com Mark Twain, a fim de conhecer sua opinião sobre o livro e entrevistá-lo a respeito de outros assuntos de interesse. Nos últimos anos, dediquei bastante tempo à escrita automática e, por experiências anteriores, tive a intuição de que as condições para a comunicação eram favoráveis. Peguei meu bloco e meu lápis, procurei tornar-me receptivo e, em poucos minutos, uma mensagem começou a vir.
Antes de transcrever a conversa que se seguiu, devo esclarecer que, algumas semanas antes, eu havia recebido aquilo que parecia ser uma mensagem de Mark Twain. Ela, porém, desviava-se constantemente do tema e era tão confusa que acabei escrevendo, com certa irritação:
“Se você é Mark Twain, por favor, tente ditar como um gênio literário, e não como um charlatão.”
Quando iniciei minha conversa depois da leitura do livro do Dr. Hyslop, eu havia esquecido completamente o episódio do “charlatão”. Mark Twain, ao que parece, não o havia esquecido; e o incidente evidentemente deixara alguma marca em sua mente espiritual.
Isso explica as referências irônicas ao termo “charlatão” que aparecem em minha conversa com ele. Depois que a comunicação se estabeleceu, recebi um comentário sobre o livro, seguido por minhas perguntas e pelas respostas do espírito. O registro é o seguinte:
M. T.: Bem, tudo foi resolvido pelo homem erudito que escreveu o livro que você acabou de ler. Ele não conduziu o leitor aos reinos da escuridão para abandoná-lo lá; escreveu como vidente e profeta de uma nova dispensação.
Pergunta: Se este é Mark Twain, pode dar alguma prova de identidade?
Resposta: Toda a sua atenção, meu amigo, parece voltada para a parte auditiva. Sua visão mental não anda muito forte, do contrário minha identidade seria reconhecida imediatamente.
Pergunta: Sou cuidadoso porque, em muitos casos, escritores automáticos são enganados pelo próprio pensamento subconsciente, que dirige a escrita das mensagens.
Resposta: Muito bem, muito bem, meu douto amigo. Você é uma personalidade saudável e ativa, ainda que nem sempre seja um médium muito sensível.
Pergunta: Uma mensagem típica de Mark Twain deveria estar cheia de piadas e ditos engraçados.
Resposta: Sob as páginas dos livros de Mark Twain há uma lição a ser lida por todos os que têm olhos: a libertação da alma de suas amarras, a emancipação das ideias estreitas do decoro social que estrangularam a humanidade. Isso estava disfarçado sob suas brincadeiras e risos, que tanto chamaram a atenção do mundo.
Pergunta: Algumas pessoas afirmam que Jap Herron é apenas uma imitação fraca do seu estilo. O que você tem a dizer sobre isso?
Resposta: Os desejos do mundo jamais são satisfeitos, pois sempre acabamos vendo que tudo é vaidade e aflição de espírito. Mas aqui, deste lado, o aspecto material não exerce domínio sobre o espírito, enquanto o aspecto mental é percebido em toda a sua grandeza e perfeição.
Pergunta: Você não está respondendo diretamente. Sua resposta parece bastante incoerente.
Resposta: A resposta pode parecer divagante, mas, meu caro amigo, tenha um pouco de paciência com um velho escritor endurecido, que um dia esteve na Terra como fabricante de livros e que agora desertou temporariamente do mundo espiritual para raciocinar com você sobre a vida. Você recentemente me chamou de charlatão; mas os charlatões, às vezes, são um pouco mais instruídos do que certos filósofos devidamente educados nas delicadezas da existência.
Pergunta: Você parece sugerir que eu apliquei o termo “charlatão” a você. Não me recordo de ter feito isso.
Resposta: Você apagou a palavra da memória, mas a ferroada permaneceu na minha, e só foi retirada quando você decidiu tratar-me com algum grau de respeito. Não importa. Aqui está minha mão espiritual para apertar a sua em amizade.
Pergunta: Restabelecida a paz, gostaria de fazer uma pergunta. Por que, às vezes, perco a arte da escrita automática e não consigo receber nenhuma comunicação do além?
Resposta: Você destrói essa faculdade em certos momentos porque suspeita que tudo não passa de uma representação charlatanesca da sua própria mente, ou de alguma influência enganosa fazendo-se passar por espírito. Em seu íntimo, você nega que as mensagens sejam autênticas; e, assim, destrói seu poder receptivo.
Devo acrescentar que essa afirmação é verdadeira. Embora eu acredite na possibilidade de comunicação com os espíritos, minha fé às vezes vacila quando recebo mensagens enganosas ou quando leio alguma opinião contrária à sobrevivência da alma, expressa por algum homem de ciência.
Pergunta: O que você pensa sobre o estado atual do mundo?
Resposta: Pelo que consigo saber, confesso que estou muito satisfeito por não estar no mundo neste momento. Parece que as posições relativas das almas estão de tal modo desordenadas que os grandes se encontram, em sua maioria, nos degraus inferiores, enquanto os menos desejáveis sempre conseguem subir ao topo do monte.
Como as coisas estão, os homens retardam sua ascensão a uma esfera mais elevada por causa de sua atividade mental, tão mortalmente presa à visão material que apenas um cataclismo poderia despertá-los para qualquer outra coisa. Dinheiro e poder continuam sendo os grandes prêmios pelos quais toda a humanidade parece lutar; e, quando a luta termina, quão pobres parecem, deste lado do rio, até mesmo os mais ricos.
Pergunta: Por que você não fala algo sobre o mundo espiritual, em vez de repetir coisas que muitos de nós já sabemos?
Resposta: Meu douto amigo diz: “Por que não nos conta tudo sobre o mundo espiritual?” E, mentalmente, acrescenta: “Acalme nossas mentes quanto à existência de céu ou inferno.” Pois aqui está minha resposta: há deste lado alguns que foram condenados ao inferno, mas que são felizes e veem o céu como sua recompensa. Outros, levados a acreditar que certamente usariam coroas de ouro, estão vendo, como diria um homem realmente franco, muito mais inferno do que jamais esperaram.
Em outras palavras, colhem a safra completa de seus desejos e aspirações egoístas, enquanto a mão implacável da justiça concede bem-aventurança àqueles que não foram santos por fora, mas foram devotos em suas almas e santos em seus corações e ações.
Pergunta: Gostaria que você dissesse o que poderia ser feito para provar a existência do mundo espiritual além de qualquer dúvida, de modo que o ceticismo chegasse ao fim.
Resposta: Os homens estão recebendo alguns vislumbres do mundo espiritual por meio de certas almas obstinadas que insistem em retornar à Terra para anunciar que ainda estão vivas. Alguns ouvem falar da vida além por meio de suas próprias intuições; outros recebem auxílio de maneiras diferentes. Mas ninguém fica tão absolutamente convencido a ponto de dizer, com segurança positiva: “Eu sei que a vida continua em outro plano, e todas as minhas dúvidas terminaram.” Ainda permanece uma suspeita persistente de que talvez tenham sido enganados pelas evidências.
A única maneira de pôr fim a todas essas dúvidas é possuir um sentido real da vida além, o que só se torna possível quando alguém se desprende da vida material o bastante para contemplar a vida espiritual como realidade. E isso só é possível pela libertação da alma e pelo direcionamento de seu voo ao mundo seguinte.
Realizar isso só é possível quando os desejos sensíveis se desenvolvem a ponto de oferecerem orientação ao aspirante. Nenhuma prova será dada capaz de convencer todos os homens até que eles se desenvolvam mais profundamente em seus atributos espirituais e sejam menos governados pelos desejos materiais.
Pergunta: E quanto aos espíritos materializados que aparecem nas sessões? Eles são uma boa prova, assim como as comunicações recebidas por médiuns genuínos.
Resposta: O que você realmente deseja é que um espírito apareça e entregue uma mensagem a cientistas incrédulos e outros céticos. Mas tal manifestação não é possível, pois a matéria sensível que se desenvolve nas sessões depende do médium e não é capaz de vagar por toda a Terra, corrigindo a humanidade dura e insensível a respeito do espiritismo.
Os médiuns não conseguem estabelecer uma conexão permanente com o mundo espiritual, e as formas que desenvolvem por sua faculdade de reprodução são mais reflexos da alma do que sua incorporação real.
Pergunta: Então não há meio de obtermos prova satisfatória sem estados de transe ou outras condições anormais?
Resposta: Não, porque o domínio do material é forte demais para permitir que o mundo espiritual se torne visível à vida mortal no sentido comum.
Pergunta: Um de nossos amigos cientistas pretende fundar um laboratório psíquico para capturar fantasmas. Isso provavelmente fornecerá ao mundo alguma evidência surpreendente.
Resposta: Ele tem um objetivo meritório, mas uma tarefa sem esperança pela frente. Ninguém na Terra jamais conseguirá capturar um espírito com balanças, tubos de ensaio e registradores de som.
Pergunta: É tão difícil provar a existência da vida espiritual que não surpreende muitos de nós sentirmos a fé enfraquecer de tempos em tempos.
Resposta: Se você deseja conservar seu poder de comunicação, deve escrever como alguém que crê, e não como alguém que descrê dos poderes superiores do mundo invisível. Meu caro amigo, é preciso aprender que a mente é mais forte que a vida mofada da Terra, e que a humanidade inteligente não é como os animais que perecem na ignorância da verdade.
Pergunta: Você pode ditar uma mensagem aos leitores de Azoth?
Aos pensadores de Azoth
Resposta: Sim. Anote isto e entregue ao editor:
“Charlatões são honestos, mesmo quando, de tempos em tempos, ficam de cabeça para baixo em vez de permanecerem sobre os próprios pés, como os escritores eruditos costumam fazer. Quando o sentimento é honesto, porém, e o coração é são, que diferença faz onde o charlatão está ou de que modo se sustenta? Espíritos não são como cidadãos sólidos e dignos, raramente flagrados em uma posição que não esteja estritamente de acordo com as regras da etiqueta terrena. Onde tudo é mais ou menos nebuloso, nossas noções de etiqueta, naturalmente, também devem ser um pouco vagas.
É satisfatório saber que Azoth se juntou às fileiras das publicações que dizem a verdade a um mundo muito pouco agradecido. Aqueles que estiveram associados ao editor realizaram um bom trabalho na busca da solução para o maior problema da vida: o destino da humanidade depois que a existência terrena chega ao fim.
Permitam-me dizer isto: a matéria não é forte o bastante para reter o espírito, e nada jamais poderá destruir a alma. Eis uma prova viva da verdade: eu mesmo, um oponente bastante determinado de tudo o que é falso. Espero que Azoth prossiga em sua obra e molde o pensamento de ao menos algumas pessoas, para que compreendam toda a verdade e nada além da verdade.
Sob o coração da honestidade repousa a alma da verdade, e por essa razão ela se entroniza como juíza suprema. Nenhuma reversão de suas decisões jamais se faz necessária. Quando os homens forem governados por suas sentenças, o mundo será um lugar mais decente para todos aqueles que acreditam no bom senso firme e na liberdade da alma.
Mesmo os argumentos mais fortes são inúteis para convencer o mundo de que a vida após a morte foi provada pela experiência. Tudo o que os editores mais progressistas podem fazer é relatar acontecimentos semelhantes aos registrados pela Sociedade de Pesquisas Psíquicas e deixar o restante à razão.
‘Willie, sentimos sua falta’, diz a boa e velha canção. Mas o sentimento é apenas meio verdadeiro, pois, se a canção fosse tão real quanto a vida, acrescentaria: ‘Pelo amor de Deus, não volte, ou nos dará um susto mortal.’ Essa é a atitude do clero e de outros espíritos presos à Terra. Eles são contrários a qualquer retorno do espírito, porque isso representa uma afronta às suas doutrinas favoritas sobre céu, inferno e ressurreição corporal. Mas aqui está um charlatão, bastante disposto a retornar para negar suas histórias sobre a vida futura.
De nada adianta escrever para pessoas de entendimento estreito que estão a caminho de casa, mas se recusam a permitir que a casa lhes seja revelada antes de chegarem lá. Azoth está levando alguns a pensar, mas a grande maioria das pessoas no mundo é tão material quanto uma fileira de tijolos numa parede, e quase tão capaz quanto ela de pensamento original.
Bem, fico contente em poder enviar minhas saudações e mostrar ao editor que não sou minimamente vingativo, apesar de tudo o que foi dito sobre mim em Azoth. Gostaria de poder dizer algo mais legível e relatar experiências dignas de repetição. Mas, veja bem, estou cansado de ficar de cabeça para baixo, e realmente preciso voltar a me pôr de pé antes que a polícia celestial me peça para circular.
— Mark Twain”