Existe um tipo de templo que denuncia o seu proprietário antes mesmo que ele inicie o ritual de banimento, não porque haja poeira sobre o altar ou cera velha no castiçal, mas porque cada centímetro do local parece ocupado pela necessidade desesperada de parecer ocultista. Baralhos que não são utilizados, uma adaga cuja única função é oxidar, alguns cristais comprados por impulso e um exemplar de Três Livros de Filosofia Oculta, de Agrippa, jogado em uma prateleira. O chão pode ter sido varrido naquela manhã; o templo, entretanto, continua imundo.

Convém esclarecer desde já que "imundo", aqui, não significa contaminado por uma misteriosa fuligem astral que somente alguém com um curso de limpeza energética pago em 12 vezes consegue enxergar. A sujeira que interessa é bem menos espetacular e, por isso mesmo, mais difícil de remover. Trata-se da acumulação de coisas, gestos, hábitos e símbolos que deixaram de obedecer a uma intenção. O templo se suja quando vira depósito de objetos ocultistas, quando o ritual se converte em uma mera sequência decorada e quando símbolos provenientes de sistemas diferentes são empilhados como adesivos numa mala de aeroporto.
Essa distinção é antiga. Quando Mircea Eliade descreveu a experiência religiosa do espaço, insistiu que, para o homo religiosus, o espaço deixa de ser homogêneo, pois o sagrado introduz uma ruptura e separa qualitativamente uma região do restante do mundo. É possível discordar — e muita gente na história das religiões discordou — da ambição universalizante de Eliade. Contudo, permanece interessante a ideia de que um espaço ritual existe porque alguma diferença foi instituída ali, e não porque alguém colocou uma toalha preta sobre uma cômoda.
Crowley, que dificilmente desperdiçava uma oportunidade de converter mobília em metafísica, levou essa lógica bastante longe na segunda parte de Book 4. Para ele, o templo representa o universo exterior, enquanto círculo, altar e instrumentos correspondem a aspectos determinados da operação e do próprio magista. A varinha é relacionada à vontade, a taça à compreensão, a espada à razão e o pantáculo ao corpo. Pode-se aceitar ou rejeitar a cosmologia inteira, mas existe um princípio de composição bastante sensato por baixo dela: em um templo sério, os objetos têm uma função específica. Um instrumento que não participa do rito não se torna mais mágico simplesmente por ocupar espaço ao lado de outros instrumentos.
É precisamente nesse ponto que o colecionismo ocultista começa a produzir uma espécie curiosa de poluição. O problema não está em possuir muitas coisas — Agrippa teria provavelmente considerado nossa pobreza de parafernália quase constrangedora —, mas em permitir que a quantidade destrua a essência do lugar. Um altar no qual nada pode ser movido porque cada superfície foi ocupada por lembranças, talismãs antigos, presentes, pedras, vasos, cartas, sigilos aposentados e objetos comprados para uma operação que jamais aconteceu torna-se algo semelhante àquela gaveta cheia de cabos que todos nós um dia possuímos: sabemos que tudo ali teve uma finalidade em algum momento — ou talvez não —, mas ninguém mais é capaz de explicar qual.
Israel Regardie oferece uma maneira particularmente útil de pensar esse problema porque, em The Middle Pillar, o templo não aparece apenas como aposento externo. Ao discutir os dois pilares da Golden Dawn, ele os apresenta como representações de polaridades e afirma que o próprio templo pode ser compreendido como uma miniatura da vida e, simultaneamente, da natureza interior do operador. Mais adiante, ao tratar do Ritual Menor do Pentagrama e do Pilar do Meio, interpreta essas práticas como formas de ordenar atenção, imaginação e equilíbrio psíquico.

Sua tese maior é justamente a de que o aparato mágico perde sentido quando não corresponde a algum trabalho realizado no indivíduo. Sem desenvolvimento interior, a cerimônia pode degenerar em hábito e costume, numa série de observâncias cumpridas de modo perfunctório.
Isso muda bastante o sentido de "limpar o templo". Limpar não é apenas tirar aquilo que está fisicamente sujo, embora convenha observar que nenhuma metafísica conhecida sofreu danos graves pelo uso ocasional de um pano. Limpar é devolver diferença às coisas. É decidir por que determinado objeto está sobre o altar, por que aquela direção do espaço recebe determinada atribuição, por que um gesto acontece antes de outro e por que aquele recinto precisa comportar-se de maneira diferente durante uma operação. Quando tudo pode estar em qualquer lugar, ser usado para qualquer coisa e receber qualquer significado conforme o humor do dia, não se obteve liberdade mágica; conseguiu-se apenas uma liberdade na qual todas as palavras significam tudo e, portanto, quase nenhuma significa coisa alguma.
Agrippa, escrevendo num universo intelectual muitíssimo diferente do nosso, dedica parte do terceiro livro de De occulta philosophia à pureza exigida nas operações religiosas. O interessante é que sua preocupação não termina nos materiais: antes de tratar da abstinência, solidão e tranquilidade, ele insiste na pureza da mente e do coração. Não há necessidade de transformar recomendações renascentistas sobre jejum e castidade em programa de saúde do século XXI — seria uma péssima ideia fazê-lo sem contexto —, mas a estrutura do argumento merece atenção. Para Agrippa, preparar a operação significava preparar simultaneamente ambiente, matéria e operador.
O ocultista contemporâneo inventou uma versão interessante do problema porque carrega no bolso um aparelho projetado para dissolver exatamente aquilo que o ritual exige concentrar. Pode-se passar vinte minutos escolhendo o incenso planetário correto, calcular hora e dia, posicionar instrumentos segundo correspondências tradicionais e, no momento em que o espaço finalmente adquire alguma unidade, interromper tudo porque o telefone vibrou com a notificação de que alguém respondeu a um comentário sobre Mercúrio retrógrado. Nenhum espírito hostil precisou atravessar o círculo; bastou um algoritmo desenvolvido pelo Old Uncle Mark.
Por isso o corpo é parte da limpeza. Regardie atribui grande importância à respiração, à concentração, à vibração da voz, à visualização e à repetição disciplinada dos exercícios, precisamente porque a operação não acontece apenas diante do praticante: ela é executada por um organismo que precisa aprender a fazer determinadas coisas de determinada maneira.
Estudos contemporâneos do ritual, partindo de pressupostos muito diferentes dos de Regardie, chegam a um ponto comparável sem precisar decidir se anjos comparecem ou não. Jack Williams, numa abordagem fenomenológica publicada em Religious Studies, argumenta que a participação ritual pode remodelar hábitos perceptivos e alterar a maneira pela qual objetos e propriedades do mundo são apreendidos pelo participante.
Isso também explica por que os objetos rituais não deveriam ser tratados como decoração ilustrativa. Em tradições inteiramente distintas da magia cerimonial europeia, antropólogos encontram repetidamente formas muito mais fortes de relação entre materialidade e rito. Em sua pesquisa etnográfica sobre Umbanda no Sudeste brasileiro, Eleonora Lundell observa que os objetos utilizados nos rituais podem ser vividos pelos praticantes não como meras representações de alguma ideia ausente, mas como componentes constitutivos do trabalho religioso.
Evidentemente, seria grosseiro reduzir Umbanda, Golden Dawn e magia renascentista à mesma explicação. A comparação serve justamente para lembrar que objetos rituais têm relações específicas dentro de sistemas específicos, e arrancá-los dessas relações para formar uma vitrine de "coisas místicas" frequentemente elimina aquilo que os tornava interessantes.
É aqui que a tradição começa a ganhar certa importância. Guénon levou essa questão a uma posição muito mais rígida do que a maioria dos praticantes contemporâneos aceitaria. Em Aperçus sur l’Initiation, ele sustenta que um rito pertence a uma forma tradicional e que, fora das condições que lhe conferem validade, resta apenas uma forma vazia. Não é necessário comprar toda a metafísica guenoniana para perceber a acusação incômoda escondida ali. Símbolos não são peças de LEGO metafísico simplesmente porque possuem boa aparência quando combinados, e a famosa liberdade de "montar seu próprio sistema" não isenta ninguém do trabalho tedioso de compreender o material que está desmontando.
Mas isso também não significa que tradição seja sinônimo de pureza histórica, meu amigo. A própria magia cerimonial moderna herdou sistemas construídos por combinação, tradução e apropriação. A questão relevante não é preservar uma fantasia arqueológica de linhagem intocada, mas distinguir síntese de um amontoado sem sentido. Síntese produz relações inteligíveis; o amontoado apenas ocupa espaço. Crowley pôde harmonizar materiais provenientes de sistemas diversos justamente porque tentou atribuir correspondências e funções às partes, e Regardie pôde reinterpretar técnicas da Golden Dawn em linguagem psicológica porque propôs uma arquitetura para essa aproximação. Pode-se considerar suas arquiteturas convincentes ou equivocadas, mas não podemos dizer que foram acidentais.

Uma boa limpeza ritual, portanto, começaria de maneira muito menos glamourosa do que o mercado esotérico gostaria. Tire tudo do altar e obrigue cada coisa a justificar sua volta. Limpe fisicamente os instrumentos, descarte restos, retire oferendas deterioradas, conserte o que está quebrado, arquive o que pertence a trabalhos concluídos e devolva livros à estante quando sua função sobre o altar for apenas demonstrar que você os possui.
Depois, examine a circulação do seu corpo: há espaço suficiente para caminhar, ajoelhar, virar-se e manipular instrumentos sem improviso? Examine a atenção: o telefone precisa estar ali? Examine os gestos: você sabe por que os executa ou aprendeu apenas a ordem? Examine, finalmente, os símbolos: eles pertencem à operação que será realizada ou são convidados de uma festa que já terminou?
Depois disso, talvez valha a pena acender um incenso.
Não porque a fumaça vá magicamente limpar as "energias negativas", mas porque, pela primeira vez em algum tempo, haverá no recinto uma chance razoável de cada coisa estar fazendo aquilo que deveria fazer. O espaço marcará uma diferença, os instrumentos terão funções, o corpo saberá como se mover e a atenção encontrará menos obstáculos para permanecer onde foi colocada.
Nesse momento, o templo deixa de ser uma coleção de opiniões sobre magia e volta a ser aquilo que a própria palavra sugere: um lugar separado para uma determinada operação.
O pior tipo de sujeira ritual nunca foi a poeira sobre o pentáculo. Poeira, felizmente, sai com pano úmido. Muito mais resistente é a camada de automatismo que se deposita sobre práticas repetidas sem atenção. Um templo realmente imundo é aquele no qual nada precisa significar exatamente aquilo que diz significar; e não existe defumação suficientemente forte para corrigir isso sem que o operador, em algum momento, comece a trabalhar também.
Referências
- REGARDIE, Israel. The Middle Pillar: The Balance Between Mind and Magic. Ed. Chic Cicero e Sandra Tabatha Cicero. Llewellyn, 2004. Especialmente os capítulos sobre os dois pilares, o Ritual Menor do Pentagrama e o Pilar do Meio.
- CROWLEY, Aleister. Book 4, Part II: Magick. Ver especialmente o capítulo “The Temple”, sobre a função simbólica do espaço e dos instrumentos rituais.
- AGRIPPA, Heinrich Cornelius. Three Books of Occult Philosophy, Livro III, caps. LIV–LV. Sobre pureza, preparação ritual, abstinência, solidão e disposição mental.
- ELIADE, Mircea. The Sacred and the Profane: The Nature of Religion. Harcourt, 1959. Utilizado sobretudo para a noção de espaço sagrado como ruptura da homogeneidade espacial.
- GUÉNON, René. Aperçus sur l’Initiation. Éditions Traditionnelles, 1946. Ver os capítulos sobre rito, transmissão, síntese e sincretismo.
- WILLIAMS, Jack. “Embodied World Construction: A Phenomenology of Ritual”. Religious Studies, v. 60, n. 1, pp. 103–122. Sobre ritual, percepção e formação de hábitos corporais.
- LUNDELL, Eleonora A. “Exú's Work – The Agency of Ritual Objects in Southeast Brazilian Umbanda”. Journal of Ethnology and Folkloristics. Utilizado como referência para a relação entre materialidade, objetos e prática ritual.