Magia

Entre as Duas Colunas

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Israel Regardie (1907 - 1985)
Israel Regardie (1907 - 1985)

Há no homem um templo que nenhum pedreiro levantou e que, todavia, ameaça ruir a cada instante. Suas colunas não são de mármore, nem sustentam teto algum que os olhos possam medir; erguem-se, antes, nos recessos da alma, uma à direita e outra à esquerda, como testemunhas severas da dupla lei que nos governa. Uma fala pelo rigor, pela medida, pela lâmina lúcida da razão, pela vontade que separa e ordena. A outra murmura a misericórdia, o abandono, a paixão que dissolve, o amor que acolhe e a água secreta pela qual tudo retorna ao seio da vida. Entre ambas caminha o homem, não como senhor de si, mas muitas vezes como réu conduzido por forças que desconhece.

Não suponhas, porém, que uma dessas colunas seja santa e a outra maldita. A ignorância sempre deseja simplificar o mistério, e por isso inventa ídolos de um lado e demônios do outro. O rigor, quando se conserva em seu trono legítimo, é a espinha da justiça; mas, quando se embriaga de si mesmo, torna-se crueldade, secura, esterilidade de espírito. A misericórdia, quando iluminada pela inteligência, é a mão aberta da providência; mas, quando se separa da vontade, degenera em fraqueza, complacência e abandono da própria dignidade. Toda força que se isola quer tornar-se deus; e toda força que pretende reinar sozinha acaba fundando uma tirania dentro do homem.

É por isso que a vida comum, essa vida que chamamos profana porque ainda não aprendeu a ler os sinais que a atravessam, é quase sempre uma oscilação entre extremos. Hoje o homem se exalta e crê possuir o céu, amanhã se condena e imagina não merecer sequer os direitos mais básicos. Ama com excesso, odeia com excesso, promete com excesso, renuncia com excesso. Passa da severidade à dissolução, da confiança à suspeita, do fervor à lassidão, da disciplina ao abandono, como se sua alma fosse um pêndulo sem centro. E, no entanto, não é a existência dos opostos que é o problema. O problema é nos tornarmos escravos a um deles.

Tudo quanto vive respira por alternância. O coração contrai e dilata, a noite recolhe o que o dia dispersa, a semente morre no escuro para que a haste se levante à luz. O universo não se mantém por escolher uma só metade de si, mas por reconciliar suas tensões em uma ordem mais alta. Assim também funciona o homem. Aquele que deseja suprimir a paixão em nome da razão fabricará uma inteligência sem sangue; por outro lado, aquele que deseja afogar a razão em nome da paixão produzirá um incêndio sem altar.

Aquele que observa a si mesmo com alguma honestidade logo descobre que suas opiniões mais firmes são, muitas vezes, máscaras de antigos temores e que suas virtudes proclamadas podem esconder compensações que muitas vezes ficam ocultas. Sua dureza talvez seja apenas o medo de ser ferido, e sua excessiva bondade, o medo de ser abandonado. Eis por que não basta erguer símbolos diante dos olhos nem pronunciar nomes veneráveis com a boca. O templo precisa ser reconhecido por dentro. O homem deve conhecer as potências que nele se combatem, não para destruí-las, mas para retirá-las da noite em que se fazem monstruosas.

Nisso reside uma das grandes intuições de Regardie, que teve a rara coragem de aproximar a arte mágica da investigação psicológica, como quem percebe que os antigos demônios e os modernos complexos muitas vezes rondam a mesma porta, embora recebam nomes diversos. Para ele, a magia não deveria ser entendida como teatro de maravilhas, nem a psicologia como redução vulgar do sagrado a um mecanismo simples. Ambas podiam tornar-se, quando retamente compreendidas, disciplinas úteis de integração. A primeira oferecia símbolos, ritmos, imagens e operações capazes de ordenar a alma; a segunda ensinava o estudante a reconhecer suas divisões, seus recalques, suas resistências e suas fugas. Uma sem a outra corria o risco de se tornar mutilada: a magia sem autoconhecimento inclinava-se à fantasia inflamada e a análise sem dimensão espiritual arriscava-se a deixar o homem limpo, porém essencialmente vazio.

Vê, pois, que o estudante sincero não é aquele que se apressa em escolher uma coluna contra a outra. Tal escolha pertence aos sectários, aos fanáticos e aos desesperados. O verdadeiro trabalho começa quando se percebe que a coluna negra e a coluna branca são necessárias na mesma intensidade. Não confundas, contudo, equilíbrio com indecisão. O caminho do meio não é o caminho dos apáticos. Não é a covardia de quem evita toda decisão para conservar-se confortável entre as coisas. O eixo central é mais estreito e mais terrível que os extremos, porque exige do homem a renúncia ao luxo de ser unilateral. É fácil ser apenas duro e também é fácil ser apenas indulgente. É fácil refugiar-se no gelo da razão ou no vinho das emoções. Difícil é conservar a lâmina sem perder o coração, amar sem se entregar perdidamente, obedecer à lei sem matar o espírito, abrir-se ao mistério sem abandonar o discernimento.

A arte, portanto, não consiste em fugir das duas colunas, mas em atravessá-las sem se deixar capturar por nenhuma. O iniciado não é aquele que já não sente o conflito, mas sim aquele que aprendeu a não fazer do conflito o seu rei. Em seu interior, as forças continuam vivas, porém já não se lançam umas contra as outras como animais encerrados na mesma cela. Começam a girar em torno de um centro.

Esse centro é a primeira vitória sobre a dispersão. Não é ainda a coroa, nem a consumação da obra; é apenas a descoberta de que existe, entre os extremos, uma passagem. O homem que a encontra começa a perceber que sua vida inteira fora governada por reações: ora obedecia ao medo, ora à vaidade; ora buscava aprovação, ora vingança; ora chamava de virtude a própria impotência, ora chamava de liberdade a própria desordem. Quando, porém, permanece imóvel por um instante entre as colunas, já não como escravo de uma ou de outra, mas como testemunha desperta da tensão que as une, algo nele se alinha. E esse alinhamento é mais precioso que muitas visões.

Não te fies, portanto, nos êxtases que não produzem ordem, nem nas disciplinas que não produzem luz. A alma tem seus falsos sóis e suas falsas noites. Há iluminações que apenas inflam o orgulho, assim como há penitências que apenas alimentam o ressentimento. O sinal seguro é a harmonia operante: mais clareza sem frieza, mais força sem brutalidade, mais amor sem servidão, mais silêncio sem fuga. Quando isso começa a acontecer, ainda que discretamente, sabe-se que o templo deixou de ser uma imagem e tornou-se uma tarefa para a vida.

Entre as duas colunas, pois, principia a verdadeira travessia. Ali o homem deixa de se confundir com seus excessos e começa a pressentir o eixo que o sustenta. Esse eixo não é uma abstração ou uma ideia decorativa, mas uma linha viva e uma disciplina secreta da própria consciência. Os antigos o figuraram de muitos modos, e cada tradição lhe deu um nome conforme sua língua, mas aquele que o encontra em si compreende que o centro não é vazio, mas uma semente tentando germinar em meio aos extremos.

Eis a promessa do que ainda deve ser dito. Porque, quando o homem aprende a não ser devorado por esses extremos, quando já não se ajoelha diante da severidade nem se perde nos braços da dissolução, alguma coisa começa a crescer no espaço silencioso entre as colunas. Não fora dele, como uma árvore plantada em jardim estrangeiro, mas dentro dele, no terreno obscuro onde suas forças antes se combatiam. Entre o rigor e a misericórdia, entre a vontade e o abandono, entre a razão e a paixão, começa a levantar-se uma estrutura. E todo aquele que souber permanecer diante dela descobrirá que suas raízes descem ao invisível, enquanto sua copa procura a luz.

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