Ocultismo

Sir Arthur e as Fadas de Cottingley

Logo do Google
Logo do Google

Sir Arthur e as Fadas de Cottingley

Há homens que passam a vida inteira afiando a lâmina da razão. Cortam com ela o erro, a fraude, a vaidade, a superstição alheia. Depois, quando a dor lhes abre uma fenda no peito, descobrem que a mesma lâmina já não serve para tudo. Sir Arthur Conan Doyle conhecia muito bem esse instrumento. Foi ele quem deu ao mundo Sherlock Holmes, o detetive que fazia da observação uma arte quase cirúrgica. Mas o homem que criou Holmes não era Holmes.

Guarde isso, aprendiz: ninguém é idêntico ao símbolo que deixa no mundo.

Na primavera de 1920, Conan Doyle já se aproximava com fervor do espiritualismo. A guerra havia levado seu filho e seu irmão. A Europa ainda cheirava a luto, e muitos buscavam, em mesas girantes, médiuns e fotografias de espíritos, uma resposta que os cemitérios não ofereciam. Foi nesse estado de alma que ele tomou nas mãos o caso das fadas de Cottingley.

Duas meninas de Yorkshire, Elsie Wright e Frances Griffiths, haviam produzido fotografias nas quais pequenas figuras aladas surgiam diante da câmera. Para muitos, eram apenas recortes habilmente posicionados. Para Conan Doyle, talvez fossem outra coisa: uma fresta, uma prova, uma notícia vinda de uma ordem de vida que a ciência vitoriana havia deixado do lado de fora da casa.

Em dezembro daquele ano, a revista Strand anunciou aos leitores uma manchete improvável: fadas fotografadas, descritas por A. Conan Doyle. O mesmo público que lera ali as aventuras de Sherlock Holmes agora via o pai do grande detetive defendendo imagens de pequenas criaturas dançantes no norte da Inglaterra.

A pergunta não é apenas como ele acreditou. A pergunta é mais incômoda: o que, dentro dele, precisava acreditar?

A primeira lição: ausência de marca não é presença de verdade

Conan Doyle não aceitou as fotografias sem exame. Ao contrário: levou-as a especialistas da Kodak, em Londres. Eles observaram as ampliações e não encontraram sinais evidentes de manipulação. Mas foram prudentes. Disseram que alguém com conhecimento fotográfico poderia ter produzido o engano.

Aí se abriu a primeira porta falsa.

Conan Doyle concluiu que duas jovens de uma vila operária não teriam habilidade para tal artifício. Na sua cabeça, o embuste exigiria uma sofisticação que Elsie e Frances não possuíam. Essa certeza, que parecia razoável, era feita de preconceito social, pressa emocional e desejo metafísico.

Aprenda: muitas vezes o erro não entra pela porta da ignorância. Ele entra pela porta da convicção educada.

O fato de uma fraude não se denunciar imediatamente não transforma uma imagem em revelação. O invisível, quando se apresenta, não pede ingenuidade; pede ainda mais rigor. O ocultista fraco acredita em tudo para não perder o encanto. O ocultista sério examina tudo para não entregar o sagrado à primeira sombra.

A segunda lição: não envie um devoto para pesar o incenso

Conan Doyle desejava uma investigação no local. Mas ele mesmo não foi a Cottingley. Enviou Edward Gardner, um homem já convencido da existência das fadas. Gardner não era uma balança: era uma chama procurando combustível.

Antes mesmo de chegar, já havia escrito à mãe de Elsie pedindo novas fotografias. Dizia saber que as fadas existiam, que eram tímidas diante de adultos e que apenas através de suas “amigas” seria possível obtê-las. Queria imagens de fadas, elfos, duendes, brownies, goblins — a pequena nobreza inteira do mundo invisível, convocada por carta.

Quando Gardner visitou a família Wright, encontrou sinceridade. E confundiu sinceridade com prova.

Os pais de Elsie relataram o que sabiam: as meninas haviam tomado emprestada a câmera do pai, descido a um pequeno vale atrás da casa e retornado pouco depois com o negativo. Frances dizia ver fadas ali. O pai revelou a fotografia em seu quarto escuro doméstico. Era o nascimento da primeira imagem.

Gardner caminhou com Elsie até o local da tomada. Perguntou a cor das fadas. Ela respondeu: verdes muito pálidas, rosas, malvas. Falou também do gnomo da segunda fotografia: meias pretas, malha castanho-avermelhada, gorro vermelho. Quando Gardner perguntou sobre as marcas nas asas do gnomo, Elsie corrigiu o adulto: não eram marcas, eram tubos musicais. Em dias calmos, disse ela, podia-se ouvir a música fina dos gnomos.

Perceba a delicadeza da armadilha. Uma criança ou uma jovem com imaginação viva não precisa apenas mentir; basta que o adulto deseje o bastante para completar o altar.

Gardner voltou convencido. A “honestidade transparente” da família parecia bastar. Mas a honestidade de quem não sabe não purifica o que foi feito por quem sabe.

A terceira lição: às vezes o mago subestima o desenhista

Para Gardner, Elsie era uma moça tímida de cerca de dezesseis anos. Na verdade, ela já tinha dezoito, quase dezenove, e sonhava havia anos em ser artista. Essa diferença não é detalhe; é chave.

Elsie havia pintado fadas em aquarela, prendido as figuras com alfinetes e disposto tudo na folhagem diante de Frances. Ela manejou uma câmera complicada e antiga em sua primeira tentativa fotográfica, criando uma imagem estranha, memorável, destinada a entrar para a história.

Gardner viu aquarelas de Elsie nas paredes da casa. Mesmo assim, afirmou que ela não desenhava bem o bastante para produzir as fadas. Conan Doyle aceitou o julgamento.

Aqui há uma advertência para todo estudante de símbolos: nunca confunda aparência de simplicidade com incapacidade. Há mãos discretas capazes de desenhar labirintos onde o erudito só vê jardim.

Elsie não era uma sacerdotisa do mundo feérico. Também não era uma criança incapaz. Era uma jovem artista, pressionada por adultos crédulos, presa entre brincadeira, vergonha e a estranha autoridade que os homens importantes depositaram em suas imagens.

A quarta lição: quando se exige prova do mistério, pode-se fabricar teatro

Durante a visita, Gardner pediu aos pais que Elsie fizesse novas fotografias. Ela alegou que isso não seria possível sem Frances, pois as fadas só apareciam com a presença da prima. Frances, àquela altura, morava em Scarborough, junto ao mar.

Gardner então organizou as condições para que Frances passasse parte das férias em Cottingley. O desejo adulto fechou o cerco. As meninas não tinham para onde escapar sem destruir a fantasia que outros já haviam coroado.

Quando ficaram a sós, Elsie contou a Frances que havia preparado mais duas fadas de papel, uma para cada uma. No vale escondido, produziram novas fotografias. Depois juraram, em segredo, nunca mais fazer outras.

A promessa delas tem mais peso do que parece. O rito havia saído de suas mãos. Já não era brincadeira infantil, nem travessura artística. Havia se tornado uma máquina pública, alimentada por homens, revistas, leitores e por uma fome coletiva de maravilha.

Gardner ficou encantado com as novas imagens. Mas sua maior exaltação veio de uma terceira fotografia que Elsie não havia falsificado. As duas meninas achavam que se tratava apenas de um ninho de pássaro, água de chuva, sombras e formas confusas. Gardner viu ali um caramanchão de fadas. Conan Doyle também viu.

Eis uma das operações mais perigosas da mente: diante de uma mancha, ela ajoelha e chama aquilo de mensagem.

Conan Doyle diante do invisível

Em 1921, a Strand publicou novo artigo de Conan Doyle com novas fotografias. Depois, em The Coming of the Fairies, ele reuniu os textos e defendeu a possibilidade de que uma ordem inteira de seres invisíveis coexistisse conosco, separada apenas por uma diferença de vibração.

Essa ideia não era, para ele, mera fantasia decorativa. Era uma contestação da ciência endurecida de seu tempo, que parecia ter deixado o mundo limpo demais, nu demais, lunar demais. Se as fadas fossem reais, as experiências das crianças precisariam ser levadas a sério; as câmeras se multiplicariam; outros casos viriam; os pequenos povos vizinhos deixariam de ser folclore e passariam a integrar a conta do real.

Não ria depressa de Conan Doyle. O riso apressado é outro tipo de cegueira.

Ele errou, sim. Errou no método, no julgamento, na escolha do mensageiro, na leitura das imagens e na avaliação de Elsie. Mas seu erro nasceu de uma ferida humana e de uma intuição que, em outra direção, ainda merece cuidado: o mundo talvez não se reduza ao que nossos instrumentos conseguem medir sem tremor.

O problema não foi admitir o invisível como possibilidade. O problema foi entregar essa possibilidade à primeira forma que a consolou.

O segredo guardado

Elsie e Frances não revelaram a verdade dos recortes de papel senão muito tempo depois da morte de Conan Doyle. Em parte, não queriam constrangê-lo. Elsie recordava ter visto uma caricatura cruel dele numa revista. Talvez percebesse que aquele homem, tão respeitado, tão exposto, desejava profundamente que as fotografias fossem autênticas.

Há compaixão nisso. E há também uma espécie de maldição suave: quando uma mentira encontra uma necessidade espiritual, deixa de ser apenas mentira. Torna-se abrigo. E ninguém derruba um abrigo sem ouvir o barulho de alguém caindo dentro dele.

As fadas de Cottingley eram papel, aquarela e alfinete. Mas o caso não termina aí. Porque o papel revelou algo que talvez uma fada verdadeira não revelasse com tanta precisão: a vulnerabilidade de um homem diante da perda, o poder de uma imagem quando encontra uma crença pronta, e a facilidade com que o desejo veste a máscara da investigação.

Para o aluno que observa

Não despreze o invisível. Despreze a pressa.

Não zombes do crente apenas porque ele foi enganado. Pergunta antes qual dor o tornou disponível ao engano.

Não aceites uma fotografia como portal apenas porque desejas que o mundo tenha portas secretas. O mundo tem portas, sim. Mas muitas delas se abrem para quartos fabricados por nossas próprias mãos.

Conan Doyle criou Sherlock Holmes, mas no episódio das fadas procurou menos um detetive do que um sacerdote. Queria que a câmera confirmasse aquilo que o luto cochichava. Queria que a infância fosse testemunha de uma vida mais ampla. Queria que a matéria, enfim, confessasse não ser soberana.

E talvez seja por isso que essa história permanece viva. Não por causa das fadas — que eram falsas —, mas por causa do desejo que as convocou.

Todo buscador passa um dia por Cottingley.

Alguns encontram recortes no mato e chamam de milagre. Outros encontram o próprio desejo ajoelhado diante da imagem. Os mais atentos recolhem o papel, examinam o alfinete, agradecem à imaginação e seguem adiante, sem fechar a porta do invisível — mas sem entregar a chave a qualquer sombra que bata primeiro.

← Voltar aos textos